Reunião pública debate políticas para Literatura de Cordel

Uma reunião pública sobre Políticas Públicas para a Literatura de Cordel foi realizada na Câmara Municipal, por iniciativa da vereadora Cida Pedrosa (PCdoB), na manhã desta sexta-feira (20), dentro da programação do 1º Congresso Brasileiro de Cordel, que está sendo realizado no Recife até amanhã. A reunião contou com a presença de cordelistas de vários estados, repentistas, pesquisadores do Cordel, educadores e representantes de movimentos culturais.

Na abertura da reunião pública, a vereadora Cida Pedrosa disse que falar de cordel “é falar de uma forma de expressão profundamente brasileira, nordestina, popular, crítica, educativa e encantadora. E é justamente por isso que nós estamos aqui hoje: porque a literatura de cordel não pode seguir sendo tratada apenas como tradição a ser celebrada em datas comemorativas. O cordel precisa ser reconhecido como linguagem viva, como rede produtiva, como patrimônio cultural em movimento, e, portanto, como campo que exige política pública estruturada, contínua e específica”.

De acordo com a vereadora, é urgente a criação de políticas públicas para fortalecer a cultura popular e o cordel, em particular. “Há urgência porque muitos fazedores e fazedoras do cordel seguem produzindo sem as condições necessárias de circulação, edição, difusão e remuneração digna. Urgência porque a literatura de cordel ainda ocupa, muitas vezes, um lugar secundário nas políticas culturais institucionais. Urgência porque nossas crianças e jovens precisam ter acesso a essa riqueza dentro das escolas. Urgência porque preservar o cordel não é apenas guardar o passado. É garantir futuro para quem escreve, canta, imprime, declama, pesquisa e mantém essa arte viva”.

Cida Pedrosa destacou que o seu mandato assumiu compromissos com a agenda e que defendeu junto à Secretaria de Educação, a criação de um programa de formação e difusão da literatura de cordel, que inclua também a realização de oficinas de cordel e repente para estudantes da rede municipal de ensino. Também propôs a realização de um concurso literário específico para o gênero cordel, estimulando novas produções. “É fundamental, ainda, defender a criação de linha de investimento em edição e produção de folhetos de cordel, porque não existe política séria para o setor sem recurso, sem fomento”.

A vereadora disse, ainda que luta pela presença de cordelistas na programação dos ciclos festivos da cidade do Recife, nos teatros municipais, assim como defende a criação de linhas específicas nos editais públicos para a produção e circulação da cultura do cordel e do repente, construção de uma política de digitalização e acesso aos acervos de cordel. “Nosso mandato também propõe a criação do Dia Municipal do Poeta Popular e o retorno do Circuito dos Mercados, com saraus poéticos e musicais. Propomos ainda a realização de um Festival de Cantadores de Viola e Mesas de Glosa e o fortalecimento da Praça do Sebo, em Recife”.

Na sequência, a coordenadora do 1º Congresso Brasileiro de Cordel, Susana Morais, representando Associação pelo Cordel de Pernambuco (Acordel/PE) disse que o encontro nacional, que se realiza no Recife, busca “que a literatura de cordel saia dos barbantes, que entre em escolas, universidades, bibliotecas, e que não seja vista de forma estereotipada, como folclores, mas que faça parte do circuito do livro. Que deixe de fazer parte apenas da cadeia artesanal”. Em seguida ela leu a Carta Manifesto do Movimento Cordeliano Brasileiro, em que diz que o Recife é o berço do Cordel e propõe a formulação da política pública nacional com eixos estruturantes.

“Reafirmamos que o Cordel não é apenas memória, mas presente e cultura. O Cordel é gênero da Literatura Brasileira, não é um apêndice folclórico, uma curiosidade exótica, mas Literatura plena. Tem tradição editorial, estética própria, relação com literatura clássica e função social definida. Cordel é arte, cultura e memória. É urgente que o poder público reconheça o seu papel econômico da cadeia produtiva da cultura. Exigimos uma política nacional para a salvaguarda de cordel”.

A presidente da Academia Cearense de Cordel, Kênia Diógenes, falou em seguida. Ela destacou que o último levantamento sobre leitura no Brasil constatou que o brasileiro está lendo cada vez menos. “Quando temos acesso a um relatório como esse, é desanimador. Mas nesse ponto acredito no potencial da literatura de Cordel. É uma literatura popular com alcance. São folhetos curtos, com potencial de entrada para formação de novos leitores. Nós cordelistas temos em nossas mãos um material de alto potencial para formação de novos leitores”.

Kênia Diógenes, no entanto, criticou o que ela chamou de “estrelato entre os cordelistas”, sugerindo que há uma competição entre eles. “Isso às vezes atrapalha o processo de construção de algo que poderia ser maior. Se não tivermos o apoio uns dos outros, mas um concurso de estrelas para ver quem e melhor, toda a proposta da carta-manifesto será esvaziada”.

O presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Cordel, Nando Poeta, falou da importância do Congresso Brasileiro de Cordel. "Nós viemos para esse congresso para varrer os entulhos que estão no meio do caminho. Não dá para o cordel ser reconhecido como Patrimônio Imaterial, em 2018, e continuar no subterrâneo, renegado, sem políticas definitivas. Falo de políticas nos poder públicos em níveis federal, estadual, e municipal. Esse congresso é uma reviravolta", disse.

A representante da Editora Coqueiro, Aninha Ferraz, lamentou que apenas quatro dos 184 municípios de Pernambuco trabalham com a literatura de cordel nas escolas, que são: São José do Egito, Arcoverde, Sertânia e Tabira. "Nós não temos diálogo com prefeitura, com Governo do Estado, e o que dificulta muito é essa questão de venda, de distribuição. Hoje, o cordel não tem espaço nas livrarias. Quando se tem espaço no país destinado ao cordel, é separado da literatura como um todo”, afirmou.

A pesquisadora Maria Alice Amorim chamou a atenção para a importância da digitalização dos cordéis que estão em acervos, para que se mantenha as obras na memória e possibilite o acesso mais ampliado a elas. "Vamos defender políticas públicas de digitalização desses acervos, porque principalmente os cordéis mais antigos já vão ficando bastante danificados, difíceis de manuseio. Quando a gente digitaliza, a gente dá o acesso e é o mundo inteiro que vai nos ler, nos ver, e vai apreciar essa poesia”. O cordelista e produtor cultural Jorge Filó também aproveitou para denunciar que existe machismo entre os produtores de cordel.

Além da vereadora Cida Pedrosa, fizeram parte da mesa de debates as cordelistas Susana Moraes e Kênia Diógenes; Nando Poeta; Aninha Ferraz; a pesquisadora Maria Alice Amorim; e Jorge Filó. No final, a vereadora Cida Pedrosa pediu aos participantes para construir uma política pública do Cordel, no Recife, a partir da Carta Manifesto do Movimento Cordeliano Brasileiro.

Clique aqui e assista a reportagem do TV Câmara do Recife.

Clique aqui e assista a reunião pública: “Cordel é Cultura e Literatura: por uma política pública de valorização e inclusão do Cordel"


Em 20.03.2026.