Câmara promove reunião pública para debater o tema “Democracia – 62 anos do golpe militar”

Diante da necessidade de se manter viva a memória de um dos períodos mais sombrios da história recente brasileira, que foi o golpe civil-militar de 1964, e da importância de se discutir as consequências da ditatura que durou 21 anos, a Câmara Municipal do Recife realizou reunião pública com o tema “Democracia- 62 anos do golpe militar”, na noite desta quarta-feira (1). O evento, que se propôs a uma ampla reflexão de um período de grande repressão e suspensão do estado democrático de direito, reuniu políticos, estudantes, representantes de movimentos sociais, e foi promovido pelo mandato da vereadora Cida Pedrosa (PCdoB). Dez Instituições que trabalham com memória e verdade foram homenageadas.

O golpe civil-militar ocorreu entre 31 de março e 1º de abril de 1964 e, portanto, está completando 62 anos. Apoiado por empresários, imprensa, religiosos e conservadores, o golpe teve início com a deposição do presidente João Goulart, que era conhecido como Jango. Os militares tomaram o poder, instaurando a ditadura que foi marcada por violações dos direitos humanos, tortura e morte de opositores, censura à imprensa e a artistas, além de restrição de direitos políticos. Em 1985, a democracia foi restabelecida. Ex-ativistas políticos que foram perseguidos pela ditadura militar e que hoje são memória viva das atrocidades cometidas nos chamados anos de chumbo participaram dos debates.

Compuseram a mesa a fundadora do Movimento Tortura Nunca Mais em Pernambuco, Amparo Araújo, que participou como representante dos espaços e comissões de memória da homenagem; o ex-vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira, como representante de ex-presos políticos; o sociólogo Edival Nunes Cajá; o professor  José Roberto Cavalcanti, vice-reitor da Universidade de Pernambuco (UPE) e o representante do Comitê de Direitos Humanos da Cidade do Recife, Thiago Santos.

Ao abrir a reunião pública, a vereadora Cida Pedrosa disse que hoje não é um dia comum, mas de memória, reflexão e, sobretudo, compromisso. “Há 62 anos, o Brasil era arrancado do caminho democrático pelo golpe militar de 1964. Um golpe que não foi apenas contra um governo, mas também contra o povo brasileiro. Perdemos direitos, liberdade e esperança. Instaurou-se um regime que perseguiu, prendeu, torturou, exilou e matou milhares de pessoas, nos quatro cantos do nosso país. Um regime que tentou calar vozes, apagar histórias e impor o medo como regra”.

Ela disse que a reunião pública também se propunha a falar sobre resistência. “Não podemos retroceder. Precisamos, mais do que nunca, honrar os muitos homens e mulheres que abriram mão da liberdade, da convivência com suas famílias, seus projetos de vida e, em muitos casos, da própria vida por um ideal maior: a construção de um Brasil livre, justo e democrático. Aqui estão alguns dos guardiões da nossa democracia. Pessoas que carregam no corpo e na memória as marcas de um tempo de violência. Que foram torturados não por crimes, mas por sonhos. Não por ódio, mas por esperança. Vocês enfrentaram a barbárie com coragem. E é graças a vocês que hoje podemos estar aqui. Recebam o nosso respeito e gratidão. É do lado de vocês que quero estar sempre. Do lado da democracia. Do lado da liberdade. Do lado da vida. Aqui também estão os guardiões da memória”. Cida Pedrosa dedicou a reunião pública ao ex-preso político Marcelo Mário Melo.

A primeira convidada a falar foi Amparo Araújo. Ela disse que os atos e momentos simbólicos como a reunião pública realizada pela Câmara Municipal do Recife ajudam a construir uma política de memória. “Em se construindo uma política, significa fortalecer a identidade do povo do Recife e de toda resistência de Pernambuco ao longo dos anos. Pernambuco e Recife têm histórias de resistências”, disse. Ela comentou, ainda, que a vereadora, ao promover a reunião, estava contribuindo para a consolidação da política de memória e formação de identidade do Recife. “Isso é importante para que aqui nunca mais ocorram violência como a que foi vítima Gregório Bezerra, que foi arrastado pelas ruas de Casa Forte; para que ninguém mais seja torturado nas instalações do Exército, onde funcionava o Doi-Codi; nem na sede do Dops, que ficava na beira do Rio Capibaribe. Lá, várias pessoas foram mortas na tortura. Houve simulação de suicídio como o caso de Natalia Alves”.

Já Edival Nunes Cajá disse que a reunião pública funcionou como “um repúdio aos 62 anos da ditadura militar fascista no Brasil, pois o golpe atrasou o nosso país por meio século na cultura, na economia, na educação”. Segundo o ex-preso político, atualmente há uma retomada da democracia, “mas nós estamos enfrentamos muitos obstáculos, pois os fascistas insistem em golpear a retomada da democracia.” Ele afirmou que “é preciso haver a união das forças progressistas para alargar a democracia”.

Luciano Siqueira disse que rememorar os fatos da ditadura é importante porque muitos jovens não sabem o que ocorreu. “Vivi três situações com jovens. Um desses momentos foi na Unicap, quando fiz palestra para concluintes do curso de história. No final, uma estudante veio falar comigo, emocionada. Ela disse que apesar de ser estudante de história nada sabia sobre aqueles fatos que eu narrei. A segunda vez foi quando eu fui entrevistado por um grupo de sete jovens do ensino médio. Eles queriam saber sobre as torturas da época. No final, uma estudante me perguntou se eu não tinha mágoa do que vivi. Eu disse que não, pois não se tratava de uma mágoa pessoal, mas de uma luta coletiva. Nossos objetivos extrapolavam nossa individualidade. Um terceiro fato é a minha filha, que é cineasta e diretora de cinema (Tuca Siqueira). Ela dirigiu os filmes Mesa Vermelha, Vou Contar para Meus Filhos e Amores de Chumbo. Esse último fala de uma relação amorosa construída na época da ditadura”.

O professor José Roberto Cavalcanti, por sua vez, disse que participava da reunião pública “com profundo senso de responsabilidade institucional”, uma vez que a universidade registrou muitos casos de perseguição a alunos, professores e funcionários durante a ditadura. “Ao lembrar dos horrores do golpe civil militar, somos chamados a encarar um marco histórico que deu início a 21 anos de horrores caracterizados por censura, torturas e negação de direitos fundamentais. Essa data não pode ser esquecida nem relativizada. Mas constantemente rememorado como alerta coletivo para o tempo presente”. A Universidade de Pernambuco, segundo ele, tem um “compromisso inegociável” com a democracia, a memória, verdade e democracia. Ele afirmou que a UPE realiza pesquisas sobre memória de estudantes, docentes e servidores que foram perseguidos; e também fez a concessão de diplomas aos perseguidos pelo regime. Ele destacou ainda o trabalho que é realizado através da Comissão da Memória, Verdade e Justiça da UPE, sob a coordenação do professor Carlos André Moura.

 

Dez instituições e movimentos foram homenageados com placas:

Memorial da Democracia de Pernambuco

Comissão de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara da UFPE

Comissão da Memória, Verdade e Reparação da UFPE

Comissão da Memória, Verdade e Justiça da UPE

Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife

Comissão de Defesa de Direitos Humanos da OAB-PE

Instituto Dom Helder Câmara (Idec)

Comitê do Direito à Memória, Verdade, Justiça e Democracia

Centro de História, Memória e Documentação do IFPE câmpus Recife

Memorial Proex da UFRPE

 

Clique aqui e assista a reportagem do TV Câmara do Recife.

Clique aqui e assista a reunião pública: Democracia - 62 anos do Golpe Militar

 

Em 01.04.2026.