Maciel Salú é o mais novo Cidadão do Recife

Membro de uma família que se destaca na prática das diversas manifestações da cultura popular pernambucana, o rabequeiro, brincante de Cavalo Marinho e mestre de Maracatu Rural, Maciel Salú, recebeu o Título de Cidadão do Recife em solenidade realizada na Câmara Municipal, na noite desta quarta-feira (13). Nascido em Olinda, o artista convive desde a infância com as expressões que representam a identidade e os valores culturais do Estado e é presença constante nas programações festivas do Recife. A iniciativa da homenagem foi da vereadora Liana Cirne (PT) e a reunião solene foi presidida pelo vereador Osmar Ricardo (PT).

Representantes de agremiações culturais, artistas da cultura popular, músicos, além de familiares e amigos do homenageado lotaram o plenário da Câmara do Recife. Maciel Salú é filho do Mestre Salustiano, militante da cultura popular, e neto do rabequeiro João Salú. Desde cedo, revelou grande habilidade e desenvoltura com a rabeca. Na década de 1990, no auge do Manguebeat, Maciel Salú foi convidado a integrar a banda recifense Chão e Chinelo. Foi nessa época que ele começou a cantar, compor e experimentar a fusão entre o popular e o contemporâneo.

A partir de 2002, ingressou na música eletrônica junto com DJ Dolores, Fábio Trummer, Jam da Silva e Isaar, formando a Orchestra Santa Massa. Com esse grupo, participou da cerimônia de encerramento das Olimpíadas Rio 2016 e ganhou o reconhecimento da crítica através de um BBC Awards, um Prêmio Tim (melhor Álbum) e o Prêmio Multicultural Estadão. Além disso, participou de festivais como o Roskilde Festival (DNK), o Festival de la Cote d’Opale (FRA), o Roots Festival (HOL) e o Free Jazz (RJ e SP). Em 2003, o músico iniciou carreira solo. Já gravou diversos discos. Realizou turnês pela Europa e recebeu indicações para premiações importantes como o Prêmio da Música Brasileira (2009) e o Grammy Latino (2010).

A vereadora Liana Cirne, que é natural do Rio Grande do Sul, começou a discursar na solenidade falando sobre sua vinda ao Recife, em 1997, para um carnaval. Disse que terminou se apaixonando pela cultura popular pernambucana e lembrou que, anos depois, veio morar no Recife para trabalhar como professora universitária, mas terminou se tornando advogada de maracatuzeiros, que lutavam pelo direito de realizar sambadas, que estavam proibidas. Segundo ela, foi nessa época que conheceu Maciel Salú e diversos outros mestres da cultura popular.

“Foi quando começamos uma grande luta em defesa da liberdade do maracatu e contra o racismo institucional. Tivemos uma grande vitória. Foi muito lindo. E naquela luta, ganhei um presente, que foi a amizade de Maciel e Rute. Conheci o grande homem que é Maciel, o ativista da cultura popular. Ele e [a esposa] Rute Pajeú ajudam os mestres e mestras a se inscreverem em editais que não são acessíveis, mas burocráticos. É um trabalho de militância política. É um trabalho voluntário, ideológico e político. Tenho uma grande admiração pelo trabalho de Maciel e de Rute. Esse casal é uma potência”, disse.

Em seguida, a vereadora Liana Cirne relatou dados profissionais e biográficos do homenageado, fez elogios a ele e disse que Maciel Salú “se tornou o nome mais expressivo da rabeca, de sua geração”. Assegurou que ele é “um artista multifacetado e um incansável militante das tradições populares”. A parlamentar afirmou, ainda, que “o talento e a vocação de Maciel Salú” já foram reconhecidos em diversas situações e lugares e que a obra dele é “um testemunho da riqueza e da força da cultura popular pernambucana que ele leva para o mundo”

Após o discurso, a vereadora entregou o Título de Cidadão do Recife, com a respectiva Medalha, a Maciel Salú. Na sequência, artistas do bairro da Várzea foram convidados para também entregar uma homenagem ao mais novo Cidadão do Recife. O deputado João Paulo ocupou a tribuna e fez suas colocações. “Na condição de ex-vereador do Recife, queria deixar um documento por escrito, que é o meu discurso, para ser registrado nos anais desta Casa e ser publicado no Diário Oficial”.

João Paulo disse que a homenagem que estava sendo feita a Maciel Salú era necessária e que “hoje é um dia de alegria porque esta Casa está reunida para homenagear um dos filhos mais preciosos de Pernambuco. Tenho a honra de conhecer Maciel Salú e de ser seu parceiro no Projeto Azougue, iniciativa que ele idealizou ao lado de Rute Pajeú e que tem como essência promover o encontro entre cultura popular e educação. Falar de Maciel Salú não é só uma obrigação cívica. Mas um ato de gratidão pessoal, como pernambucano, amante da cultura e fã deste grande artista de nossa terra”. Em seguida, João Paulo destacou que o homenageado “nasceu dentro da música” e também lembrou das origens e influências do artista, enaltecendo o talento e a capacidade de articulação dele entre os produtores da cultura popular.

Na sequência, foram feitas apresentações culturais, além de uma demonstração de um “Terno de Maracatu”, que é o conjunto que acompanha o maracatu rural e que dá o ritmo entre as loas. Logo após, o mestre Maciel Salú ocupou a tribuna e falou do sentimento de se tornar Cidadão Recifense. “Eu sempre disse que o Recife fez e faz parte de minha vida. Sou de uma família cuja origem, por parte de pai e também de mãe, é do município de Aliança (Zona da Mata Norte). Eu nasci em Olinda, mas vivi grande parte de minha vida, parte da minha infância e a adolescência, aqui no Recife. Então eu sempre esperei por esta hora, por este momento, de ser cidadão recifense”, afirmou.

Nesta vivência do Recife, Maciel Salú disse que era comum frequentar lugares simbólicos da cidade. “Eu sempre frequentei o Mercado de São José, onde ia comprar material [para as brincadeiras populares] como palha, cordas, chapéu, para fazer as apresentações. Também ia na Casa Lapa comprar ervas. Vi muitas apresentações dos repentistas e emboladores como Beija Flor e Oliveira. Frequentava Barbosa, que era um sapateiro que ficava na Avenida Guararapes, onde eu encontrava vários mestres do maracatu. Lá, a gente passava muito tempo falando de maracatus. Minha vida toda foi andando e aprendendo pelas ruas e pelas pontes do Recife”, assegurou.

Ele rememorou as vezes que, voltando para casa, em Olinda, precisou esperar pelo último ônibus da noite, o chamado bacurau. “Eu vinha ensaiar com a Banda Chão e Chinelo e voltava para casa cheio de instrumentos. Além dos ensaios, sempre frequentei as periferias dos morros de Casa Amarela, para sambar, como o Alto José Bonifácio e o Morro da Conceição”. Ele finalizou dizendo que, por toda a sua ligação com a cidade, era uma honra receber o Título. “Recebo essa homenagem através da vereadora Liana Cirne, que é uma pessoa que está sempre defendendo as pautas da cultura popular e a quem sou grato. É um Título importante porque, por onde ando, digo que sou de Olinda, mas também sou do Recife”.

Durante a solenidade, um vídeo foi exibido nos telões do plenário da Câmara do Recife, do cantor Criolo, em depoimento sobre o trabalho de Maciel Salú como cantor e compositor. Além da vereadora Liana Cirne e do vereador Osmar Ricardo, a mesa de honra foi composta pelo mestre de maracatu e homenageado Maciel Salú; o deputado estadual João Paulo; a presidente do Maracatu Piaba de Outo e do Cavalo Marinho Flor de Manjerona, Moca Salustiano; o artista da Várzea, José Carlos Vidal; o secretário Executivo de Gestão da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife, Dirceu Marroquim.

 

Clique aqui e assista a reportagem do TV Câmara do Recife.

Clique aqui e assista a reunião solene para entrega do Título de Cidadão do Recife ao mestre de maracatu-rural Maciel Salú



Em 13.05.2026.